Confira a segunda reportagem da Série especial sobre Terceirização - Terceirização no setor bancário

Confira a segunda reportagem da Série especial sobre Terceirização - Terceirização no setor bancário
18.08.2015
REPÓRTER: O setor bancário é um dos ramos mais rentáveis da economia brasileira. E a maior parte da força de trabalho vem de empregados terceirizados. Na nossa segunda reportagem especial sobre a terceirização, o repórter Ricardo Cassiano detalha as vantagens e os riscos da contratação indireta de trabalhadores no setor.
Oitocentas mil pessoas! Esse é o número de trabalhadores terceirizados a serviço de bancos públicos e privados em todo o País, de acordo com a Confederação Nacional dos Bancários. A quantidade supera o número total, de quinhentos mil profissionais, contratados diretamente pelos bancos. O setor é um dos mais sensíveis quando o assunto é a terceirização.
A contratação indireta de pessoal começou no início da década de 90, quando o Governo Collor possibilitou a abertura econômica e financeira do País. No início, apenas trabalhadores das áreas de segurança e limpeza eram terceirizados pelos bancos. Mas, a prática se expandiu rapidamente para outros setores, considerados essenciais pelos bancários. Entre eles, a tesouraria, a retirada de malotes e a abertura e conferência de envelopes de depósito, para compensação: a chamada "retaguarda".
O secretário da Confederação Nacional dos Bancários, Carlindo Dias, afirma que a terceirização dessas atividades, muitas delas atreladas aos caixas eletrônicos, foi uma forma encontrada pelos banqueiros de aumentar os lucros, mas, também, de minimizar os efeitos das greves no setor, reduzindo o poder de fogo dos sindicatos.
SONORA: Carlindo Dias - secretário da Contraf
Se você cria uma greve forte, você parava o setor de compensação e o de processamento de dados, aí, o que aconteceria? Realmente, quebrava as pernas dos bancos, naquela época. Hoje não! Eles terceirizaram... você não tinha como parar os terceirizados, aí o banco acabava com a greve.
REPÓRTER: Para a presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Ana Tércia Sanches, o aumento das contratações indiretas contribuiu para a precarização do trabalho.
SONORA: Ana Tércia Sanches - Sindicato dos Bancários de São Paulo
As empresas subcontratam pelo menor valor. Então, ela tem um conjunto de custos que ela não consegue baratear, vamos dizer assim. Onde é que ela vai baratear? É exatamente na força de trabalho. Significa dizer que ela vai pagar salários menores, que ela vai subtrair benefícios. Nós temos verificado isso. Isso tá comprovado na prática. Todas as visitas nossas, nos locais de trabalho, comprovam que os trabalhadores têm condições piores.
REPÓRTER: O sindicato diz que os terceirizados têm salário até 80 por cento menor e jornada de trabalho semanal até três horas mais longa. Como não são considerados bancários, também perdem o direito a outras vantagens, como participação nos lucros, auxílio alimentação maior e verba de requalificação.
Autor de dois livros sobre a terceirização no setor bancário, o desembargador Grijalbo Coutinho, do Tribunal Regional do Trabalho do Distrito Federal e Tocantins, afirma que os prestadores de serviço aos bancos são mais propensos, ainda, a sofrer doenças relacionadas ao trabalho.
SONORA: desembargador Grijalbo Coutinho
Os bancários terceirizados e os bancários formais são a categoria que mais sofre adoecimento laboral pelas atividades repetitivas. O que ocorre com o informal é que isso se agrava a partir do momento em que a jornada é mais elevada. Então, quando você tem uma jornada elevada, quando você tem uma jornada intensa, automaticamente isso se vincula aos adoecimentos e acidentes laborais.
REPÓRTER: O Ministério Público do Trabalho têm feito inspeções em empresas terceirizadas e proposto ações civis públicas para inibir práticas abusivas contra os trabalhadores. No Tribunal Superior do Trabalho, vigora a Súmula 331, que proíbe a terceirização da chamada atividade-fim. Os casos são analisados individualmente, de acordo com cada situação.
Já a Súmula 55 do TST permite que empregados que trabalham nas empresas de crédito, financiamento ou investimento – as financeiras – tenham direito à mesma jornada de trabalho dos bancários efetivos. A regra pode ser aplicada a trabalhadores de lotéricas e pontos de atendimento que oferecem serviços como abertura de contas, saques, pagamentos e empréstimos. Em todo o País, são quase 200 mil correspondentes bancários.
A reportagem entrou em contato com a Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, que não quis se pronunciar sobre a terceirização. Também procurada, a Confederação Nacional das Instituições Financeiras, a CNF, afirmou, em nota, que as contratações indiretas geram mais produtividade e competitividade ao setor, estimulam investimentos e contribuem na criação de empregos formais.
A reportagem de amanhã da série especial sobre terceirização vai tratar dos acidentes de trabalho envolvendo profissionais terceirizados. Você não pode perder.
Reportagem, Ricardo Cassiano
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