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Deficientes visuais do DF praticam de dança a ciclismo

Com muita precisão, a servidora pública Denise Braga Melo, 39 anos, se maquia diariamente. Devido a diabetes, ela começou a perder a visão aos 24 anos e enfrentou mais um obstáculo, a depressão. “Tranquei a faculdade de nutrição na metade, terminei o namoro de três anos. Eu sempre gostei muito de festa, de sair para dançar, mas parei de fazer as coisas de que gostava”, diz. Depois de um tempo, começou a aceitar a condição e resolveu se adaptar ao novo mundo. “Eu saí da minha zona de conforto. Frequentei o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais, na 612 Sul, terminei a faculdade, passei em um concurso”, lista.

Mas faltava uma coisa para Denise se sentir realizada: a maquiagem. Foi então que, por meio de uma amiga, ela encontrou a maquiadora Andréa Andrade em uma rede social e propôs o desafio de ensinar automaquiagem para pessoas com deficiência visual. Andréa, fundadora do projeto Beleza que se vê, lembra do susto que levou com o pedido. “Eu precisava entender a realidade delas e pensar nas dificuldades que poderiam ter, pois automaquiagem é difícil até para quem enxerga”, comenta.

A solução encontrada foi treinar com uma venda nos olhos para vivenciar as dificuldades pelas quais suas futuras alunas passariam. O pedido de Denise representou o primeiro passo para o surgimento da iniciativa. Ela foi a primeira aluna e, desde então, vem reciclando os conhecimentos. A aula dura cerca de três horas, com, em média, seis alunas por turma. “Passo três dedos na sombra e depois no côncavo. Uso a mão para demarcar o blush. E assim funciona com os demais objetos”, detalha a servidora pública. Entre 14 e 16 de julho, o projeto vai participar, inclusive, da Hair Brasília and Beauty, no Estádio Mané Garrincha.

Esporte que dá vida

Maquiar-se com os olhos vendados representa um grande desafio, imagina andar por trilhas em cima de duas rodas sem enxergar? Pedalar era uma das atividades favoritas do massoterapeuta Thiago Fernando Leão, 38, quando ele perdeu a visão em 2002, em razão de uma retinopatia diabética. Fazer isso dentro da nova realidade parecia algo impossível até ele encontrar o projeto DV na trilha, em 2005. Em uma bicicleta tander — com dois lugares — um voluntário vai no banco da frente conduzindo o guidão, enquanto a pessoa com deficiência visual pedala seguindo as orientações.
 
O projeto surgiu um ano antes, depois de uma ação pontual no Natal. Os participantes não imaginavam o impacto que a iniciativa teria na vida das pessoas com deficiência. “Quando chegamos, nos deparamos com um momento de emoção. Alguns nunca tinham pedalado na vida. Outros tinham andado, mas depois que perderam a visão não praticavam mais a atividade. Eles voltavam da trilha emocionados”, relata Simone Cosenza, uma das coordenadoras e fundadoras do projeto.

Desde então, os encontros passaram a ocorrer periodicamente. Atualmente, a iniciativa reúne cerca de 80 voluntários, todos os sábados, no Jardim Botânico de Brasília. A cuidadora aposentada Roseni do Rosário, 46, entrou no projeto por indicação do médico, há dois anos. Ela perdeu a visão aos 41 anos e conta que ficou dois anos sem sair de casa. Por meio do esporte, superou os medos. “Eu vi que era capaz de fazer várias coisas. Hoje, vou para o hospital, vou a Taguatinga, à casa de uma amiga, ao cinema, ao shopping... Tudo sozinha”, comemora. O técnico judiciário Anderson Polissene, 52, é um dos voluntários. “Vai além da inclusão. Você dá autonomia para elas, liberdade”, avalia o ciclista, que participa do projeto desde 2007.

No compasso

De mãos dadas, passos para esquerda e para direita, acompanhados de muita animação. No centro, um objeto que representa o coração, “o comum entre nós”. Assim, as pessoas com deficiência visual conseguem expressar movimentos por meio da dança. Executado há dois anos pela focalizadora Tereza Ouro, 57, o projeto Dança circular ocorre na Biblioteca Braille, em Taguatinga, uma vez por semana.

Na aula, quem manda é o coração. Não há passo certo ou errado nem limite de idade. “O segredo é confiar na pessoa ao lado. O resto é seguir a canção”, garante Tereza. A quantidade de alunos varia por aula. Atualmente, são cerca de 13 participantes por encontro, fora os voluntários, que guiam os passos. E são muitos os benefícios da dança. Entre eles, socialização, alegria e consciência corporal.

Eli Soares Araujo, 52, uma das participantes, sempre teve baixa visão, mas, no início do ano, a moradora de Ceilândia perdeu totalmente o sentido. “A dança é uma terapia, temos oportunidade de sorrir, brincar e nos ajudar nos movimentos”, enfatiza. O mais velho da turma é Miguel Reduzino, 79. “É uma maravilha. Não preciso falar muito, basta olhar ao redor e perceber a felicidade da aula”, garante.

Nayara da Silva, 26, é a caçula da turma e há sete anos participa do projeto. No fim da aula, é nítida a felicidade da aluna. “Aqui, a gente aprende a amar e a ser amado”, resume. Essa alegria se reflete em gratidão para Tereza: “É uma alegria que não cabe no meu coração”.

Delicadeza nas mãos

Ter uma atividade que contribua com a independência financeira de deficientes visuais é um dos benefícios de outro projeto, o Enxergando com as mãos, no Centro de Ensino Especial para Deficientes Visuais (CEEDV). Nilma do Carmo, 59, participa todas as quintas-feiras. Em setembro, completa dois anos que a aluna coloca em prática atividades de artesanato, como pintura em tecido, confecção de bonecas e sofás com caixa de leite.

Nilma desenvolveu o problema de vista ainda na adolescência, aos 16 anos. Aos 51, já havia perdido totalmente a visão no olho direito. Ela já sabia fazer tricô e tinha a arte como fonte de renda. “Para ocupar minha mente, precisava continuar com o artesanato”, relata. Na escola, a estudante aprimorou os conhecimentos e encarou um novo desafio: a confecção de bonecas. A partir das produções, consegue uma renda extra.  Cada produto custa R$ 20 e as encomendas somam cerca de R$ 400 por mês. A última fabricada, batizada de Clarinha, tem um destino especial. “Terminei ela na última aula e vou entregar para uma menina brincar. Espero que ela aproveite muito o presente”, comenta.

Eu, repórter

Quando me propus a dançar de olhos vendados, 100% da turma ficou eufórica. Uma mistura de medo e ansiedade tomava conta de mim naquele momento, mas não pensei duas vezes. A professora Tereza tapou meus olhos e me guiou ao centro do grupo. Em seguida, começou a ensinar os passos, e o meu desafio começava ali: aprender uma coreografia com os olhos fechados. Um passo para a esquerda, outro para a direita, várias palmas, e assim se repete o ciclo.

“Podemos começar?”, pergunta a professora. Todos os alunos prontos e eu lá, com medo de fazer alguma coisa errada. De mãos dadas, começamos a dança. No início, até que deu certo, mas depois, não lembrava mais da coreografia. Acabou a música. Pausa para beber água. Tirei a venda. Eis que a professora perguntou:

“E aí, Pedro? Como foi dançar sem ver nada?” “Desafiador”, respondi. Logo, todos caíram na risada. Ao término da aula, uma das participantes me disse: “Parabéns pela sua humildade. Você é tão jovem e se sensibilizou com a nossa condição”.  Fui embora com mais um aprendizado na vida, o de que a deficiência visual não te impede de ser feliz.

(Pedro Canguçu)

Serviço
Beleza que se vê
O curso é gratuito e ocorre mensalmente, conforme a demanda. Para participar, entre em contato pelo WhatsApp 99969-4122.

DV na trilha
Os encontros ocorrem quinzenalmente, aos sábados, a partir das 9h, no Jardim Botânico de Brasília. Para participar, entre em contato pelo número 99952-0607.

Dança circular
Os encontros são todas as quartas-feiras, a partir das 14h30, na Biblioteca Braille de Taguatinga Dorina Nowill. Não há idade mínima para participar da dança. O projeto é gratuito.

Fonte: Correio Braziliense