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Bandas com integrantes deficientes se apresentam no DF

“A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos”. A definição é de Ludwig van Beethoven, compositor clássico alemão. Talentoso, ele deu os primeiros passos na carreira musical ainda aos 8 anos e, vítima de um problema de saúde, teve perda progressiva da audição a partir dos 26 anos.

A restrição provocou crises de depressão em Beethoven, mas não o impediu de criar música. A superação está registrada historicamente, já que a composição de sua obra mais famosa, a Sinfonia nº 9, ocorreu quando ele tinha mais de 40 anos e a surdez estava em estado avançado.

Inspiração

A história do século 19 serve de inspiração para musicistas até hoje. Associar a surdez à música não é tarefa fácil, mas há inúmeros exemplos. Um deles é aqui de Brasília. O grupo percussivo Surdodum foi fundado há 25 anos pela professora Ana Soares e forma novos músicos com deficiência auditiva desde então. “A ideia surgiu em 1994. Eu fui dar aula em uma escola só para surdos. No final, fizemos uma apresentação e deu muito certo, então passei a ir à escola para captar novos alunos”, recorda Ana.

“Eles são deficientes auditivos de variados graus e tipos. Quando um novato chega, ele parte para noções iniciais como a parte de percepção rítmica. Após evoluir, em cerca de seis meses, ele já fica apto para integrar a nossa Banda Show, nossa frente que realiza apresentações. Atualmente, ela é composta por sete surdos, inclusive a vocalista, e cinco ouvintes”, revela Ana, responsável pelo grupo que tem aulas e ensaios todas as segundas-feiras na 207 Norte.

O método de ensino foi desenvolvido pela própria Ana Soares. “Basicamente eles seguem um método visual e de vibração”, diz. Mas ela recorda que nem sempre foi assim. “Hoje, as equipes já conhecem a gente, nos chamam (para tocar) pela qualidade e não pela inclusão. No início, os meninos sofriam bastante. Chamavam de ‘banda de surdinho’. Eu pedia equipamento de retorno e me questionavam: ‘pra que equipamento de som se eles são surdos?’. Ainda bem que isso passou, é muito gratificante ter sido uma das pioneiras e ter ajudado a abrir caminho a outros grupos com proposta parecida”.

Cegos

O grupo Visão do Samba, formado por integrantes cegos, também sofre com o preconceito. No entanto, Francinaldo Lopes, vocalista do conjunto, conta que as barreiras se quebram após alguns minutos de show. “Sempre tem alguém que diz: ‘o que eles tão fazendo aqui, esse pessoal tem que ficar em casa’, mas quando nos ouvem, acabam se rendendo. Em regra, o pessoal recebe muito bem a gente. Com muito apreço. Nos elogiam bastante”, confessa.

A ideia surgiu de uma brincadeira. Os integrantes eram amigos desde a escola e se reuniram para animar um evento de família. “O pessoal gostou bastante. Então, começamos a tocar em outros eventos como forma de lazer e integração. Até que passaram a nos indicar para outras festas e, depois, se expandiu para barzinhos, restaurantes e lanchonetes”, relembra Francinaldo.

Para ele, a decisão sobre o trocadilho presente no nome do grupo ajuda a tirar o foco da deficiência visual. “É um nome forte, com impacto. Somos um grupo de pagode formado por cegos, mas com um ponto de vista particular”, brinca.

Reggae

Já a banda Zaktar encontrou no reggae a forma de integrar participantes com deficiências heterogêneas. Alexandre Macarrão é baixista e faz parte da formação há 10 anos. “A ideia surgiu com o Luciano Mendes, quando ele era professor da Apae da Asa Norte. No início, os participantes da banda eram todos alunos de lá. Eu entrei depois quando ele me perguntou se eu topava tocar voluntariamente”, conta.

Alexandre diz que estar no grupo colabora para desenvolver empatia nele e no público. “Eu sofri uma queimadura na mão e perdi o movimento de um dos dedos. É algo muito pequeno se comparado a outras pessoas, mas para o músico, as mãos e os dedos são muito importantes. Depois disso, eu passei a imaginar as dificuldades que eles enfrentam. Hoje, o Zaktar conta com um músico cego, um músico com Síndrome de Down, nosso vocalista é cadeirante”, descreve. “Junto deles, percebi o quanto precisamos de adaptações. Há locais em que chegamos para tocar e não temos uma rampa para o Niltinho (vocalista) subir ao palco”.

A banda Zaktar já tocou com vários artistas reconhecidos como O Rappa, Natiruts, Biquini Cavadão e Gog. O apoio contribui para a visibilidade do projeto, que Alexandre define como fundamental para a construção da autoestima dos músicos. “A pessoa sem deficiência olha para as pessoas com necessidades especiais de uma forma diferente, cheia de limitações. Quando essa mesma pessoa os vê em cima do palco, esse olhar muda, ganha respeito. É uma lição de vida para os dois lados, um exercício de superação. É o que nos mantêm motivados”.

Fonte: Correio Braziliense