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Jornada visita famílias de vítimas de acidentes de trabalho

Na segunda reportagem da série sobre acidentes de trabalho, as dificuldades vividas por quem perdeu entes queridos, vítimas de acidentes.
 
"Ele saiu de manhã pra trabalhar, normal, e quando foi mais ou menos dez horas eu fiquei sabendo da notícia pela televisão", conta a viúva Zilda Valentino. A notícia era de que o auxiliar de pedreiro Lourival Leite e outros dois operários foram soterrados e morreram após o desmoronamento de um barranco na obra de construção de um prédio no Hospital Universitário de Brasília.
 
"Quando chegamos lá estava tudo bagunçado, muita polícia, bombeiro, um monte de gente...", conta Zilda. Ela conta que Lourival não comentava muito, mas havia pedido algumas vezes para ela comprar alguns equipamentos pra ele, como luva e trena para trabalhar.
 
O celular ficou com a polícia civil e o inquérito ajudou Zilda a pedir na Justiça indenização por danos morais e materiais. Ela fez um acordo com a empresa na Justiça e conseguiu indenização para os filhos. "Eu acho que dinheiro nenhum traz a vida de uma pessoa. Dá uma certa estabilidade para que os meninos possam estudar mais pra frente, para que eles consigam fazer a vida deles. Mas... assim... a vida, não traz de volta", lamenta.
 
 
Zilda não conseguiu pensão por morte porque não era casada oficialmente com Lourival. Mas no ano em que o acidente ocorreu, em 2011, mais de 122 mil benefícios de pensão por morte por acidente de trabalho foram emitidos pela Previdência Social, em todo o Brasil. Isso só foi possível porque os trabalhadores que morreram tinham carteira assinada e as empresas faziam recolhimentos mensais do INSS. Mas, seja qual for o motivo, se o acidente ocorrer durante a jornada de trabalho, a família pode buscar, na Justiça, direitos, como indenizações por danos morais e materiais.
 
Em Itabaiana, a 60 km de Aracaju, Sergipe, vivem os familiares do motorista de caminhão Messias de Oliveira e do eletricista Guilherme Pereira, que morreram em um trágico acidente de trabalho. Os dois trabalhavam na Energisa, empresa de energia do estado de Sergipe.
 
O acidente aconteceu no dia 13 de setembro de 2014, por volta das quatro horas da manhã. Messias, de 55 anos, e Guilherme, de 39 anos, estavam de plantão quando bateram na traseira de outro caminhão, que estava parado na estrada, sem sinalização. Os dois morreram deixando as famílias desamparadas.
 
Dona Hilda, esposa de Messias, contou que no dia do acidente ele ainda chegou a ligar para ela, pedindo socorro: "Quando eu cheguei lá, ele já estava em cima da maca do SAMU. Já tinham tirado ele. Aí eu entrei no SAMU, pediram para eu entrar e ficar lá conversando com ele. A gente esperou ainda uns vinte minutos para a gente ser transferido pro hospital de Itabaiana. Aí um medico começou a examinar quando ele deu um grito no hospital. Aí o médico disse ‘mas rapaz, o homem está todo esbagaçado'. Eu vi ele com toda aquela agonia, respirando bem fundo, se mexendo muito e deu um grito bem grande e disse ‘chega Hilda! Me acuda!' Aí eu chamei os médicos e os meninos arrastaram ele para a sala de cirurgia, e disseram ‘vamos tentar'. No mesmo dia, o médico chamou a família, me chamou, e veio me dar a notícia, e disse: ‘olha... tentamos... ele reagiu, mas quando ele parou... não voltou mais! Aí pronto", conta dona Hilda, com lágrimas nos olhos.
 
 
Messias deixou quatro filhos, dois ainda menores de idade. Dona Hilda diz que a situação financeira não ficou nada fácil para a família. "Quando era com ele, ele fazia de tudo e nunca deixou faltar nada dentro de casa; agora sem ele, recebo uma pensão e o que recebo dá conta de pagar aluguel, água e energia. O que sobra é controlando. Tem semana que dá pra passar bem, quando não dá, a gente controla. E assim vou seguindo a vida, pedindo muita sorte a Deus, só Deus mesmo", lamenta.
 
Guilherme também deixou quatro filhos, três deles ainda pequenos. A situação financeira piorou depois do acidente. Jussara dos Santos, viúva de Guilherme, fala da situação da família: "Se não fosse Deus na minha vida, eu não sei nem o que seria de mim. Mas me pego muito com Deus, tenho meus três filhos para criar agora. Agora sou pai e mãe deles. Eu converso muito com eles e digo ‘meu filho, não dá, agora sou pai e mãe de vocês e vocês tem que ter paciência um pouquinho'".
 
A irmã da vítima, Maria Paixão Pereira, também fala da situação após o acidente do irmão. "Ele era tudo para eles e não deixava faltar nada. É como se diz, ele era pobre, que nem o povo fala, mas de tudo eles tinham. Ele trabalhava pra isso, para dar o sustento dos filhos e da mulher dele. A gente sente saudade e tristeza por ele não estar mais aqui conosco".
 
 
Os últimos dados levantados pelo Ministério da Previdência Social revelam que, em dois anos, no município de Itabaiana, o número de acidentes de trajeto durante a jornada de trabalho mais que dobrou. Em 2012, foram seis acidentes e em 2013, foram registrados 17 casos. Em todo Brasil, também em 2013, já foram mais de cem mil e trezentos acidentes de trajeto.
 
Vários fatores explicam esses acidentes: a falta de sinalização nas estradas, a situação precária de algumas BRs do estado e, um dos principais fatores: as más condições de trabalho oferecidas pelas empresas de transporte, como a falta de revisão mecânica nos veículos fornecidos. Foi o que aconteceu com um avião bimotor de uma empresa de taxi aéreo, no Pará, que, por falta de manutenção mecânica, caiu e matou Eduardo da Silva Campos, de 52 anos, o piloto da companhia.
 
Entre as recordações da família dele, está a trágica notícia da morte. Em fevereiro de 2012, o avião que Eduardo pilotava caiu e explodiu após decolar do município de Cametá, no Pará, com destino a Belém. O filho, Marcos, fala sobre o acidente: "Primeiramente ligaram pra minha mãe, e aí falaram que o avião tinha desaparecido, mas não deram informação nenhuma, onde tinha sido, nem o que tinha acontecido. A gente chegou lá na empresa... eles já tinham conhecimento de que não tinha sobrevivido ninguém, mas não falaram. Falaram apenas que o avião estava desaparecido e que não tinham notícia de nada. Foi quando eu vi o salvamento aéreo saindo, e eles me falaram que já tinham retirado três corpos, que faltava o quarto e que não tinha sobrevivido ninguém".
 
Com a comprovação de que o acidente aconteceu por falta de manutenção, Marcos precisou da intervenção da Justiça do Trabalho para a empresa de aviação pagar à família indenização por acidente de trabalho, o que só aconteceu três anos depois do acidente e por meio de um acordo trabalhista. Foram pagos 900 mil reais de indenização, divididos em várias parcelas, como explica o filho da vítima: "Na Justiça a gente conseguiu provar que os errados eram eles, entendeu? E não os pilotos, que fizeram a parte deles. E isso é o que satisfaz mais a gente: a honra do nome envolvido no acidente, que além de perder o nosso pai, eles queriam botar a culpa nele".
 
 
Se a dor pela perda de um parente pudesse ser quantificada, quanto ela valeria? Como saber se a indenização corresponde ao dano causado pela empresa, depois de um acidente de trabalho? O ministro, Walmir Oliveira da Costa, do Tribunal Superior do Trabalho, comenta sobre a quantificação da dor da perda de uma família: "Não se trata, a meu juízo, de uma indenização propriamente dita, mas apenas de uma compensação de uma dor sofrida no tocante ao dano moral. Então, entendo que não há um ressarcimento integral do prejuízo, mesmo porque a morte do trabalhador não pode voltar atrás. A morte é um evento contra o qual não podemos mais discutir. Mas é apenas para mitigar, compensar o sofrimento, não para reparar integralmente o prejuízo", explica o ministro.
 
 

 
 



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