Outras Notícias Outras Notícias

Voltar

Jornada dá início à série de reportagens especiais sobre acidentes de trabalho

 

Jornada dá início à série de reportagens especiais sobre acidentes de trabalho. Na primeira delas, o drama de pessoas que sofreram acidentes no serviço.
Série serve de alerta por ocasião do Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, em 28 de abril
 
Você sabia que, em média, 48 trabalhadores são excluídos do mercado de trabalho por dia em função de acidentes de trabalho ou doenças ocupacionais? Ninguém imagina ser vítima de uma fatalidade, e ainda por cima ser surpreendido com a falta de apoio. 
 
O medo de mostrar o rosto é justamente por sofrer as consequências de um acidente de trabalho até hoje: dois anos depois de ter sido afastado e já de volta às atividades."Hoje eu me sinto como se fosse apenas mais um dentro de um lugar que eu tinha um sonho de menino, fazer parte de uma instituição do Corpo de Bombeiros. Mas a partir do momento que você se machuca, você sofre de problemas, distúrbios, eles te esquecem. Você fica jogado. Você conta apenas como mais um", conta um bombeiro, morador do Cruzeiro, cidade satélite do Distrito Federal.
 
 
A pior sensação que ele poderia ter dói mais do que conviver com as sequelas que ficaram no joelho dele após o treinamento intenso no centro operacional do Corpo de Bombeiros. "A gente começou a correr... nessa corrida eu senti como se meu joelho tivesse virado 180 graus. Meu joelho chegou a dobrar. Mas naquele calor da emoção, de continuar o treinamento, você não dá bola, mas depois nota que seu corpo está reagindo porque você está com dor. Eu cheguei e relatei desse acidente com o supervisor. Foi quando eles chamaram duas pessoas para poder atestar essa veracidade, desse acidente de trabalho. Atestaram, só que como eu queria continuar, eu continuava batalhando com dor, com dor, com dor. Chegou um belo dia que eu já não aguentava mais", explica o bombeiro.
 
Em Vicente Pires, Distrito Federal, longe do trabalho, Sandra dos Santos passa a maior parte do dia dentro do próprio condomínio. Tarefas simples como lavar a louça e arrumar a cozinha também ficaram mais difíceis. A pedido do chefe, Sandra, na época vigilante, aceitou trabalhar alguns meses como digitadora. Desenvolveu uma tendinite e uma série de outros problemas por ter perdido a força nas mãos.
 
Cinco anos após ser afastada do emprego, ela não conseguiu mais voltar a vestir o uniforme que tanto gostava, nem dar entrada no pedido de aposentadoria, mesmo sendo considerada incapacitada de retornar ao serviço, no atestado emitido pelos médicos.
 
"A tristeza é muito grande. Pelo tempo, a gente pensa assim: vinte anos, aí daqui a pouco eu me aposento e vou viajar e vou viver, e não. A gente fica pelo INSS e o tempo que a gente fica não conta. Você quando está encostado pelo INSS, você não tem direito a PIS, você não tem direito a nada. Você é ninguém", afirma Sandra.
 
 
Desde 2010, por ano, mais de meio milhão de acidentes de trabalho foram registrados em todo o Brasil. Só em 2013, em mais da metade dos casos, as vítimas acabaram afastadas do emprego por mais de quinze dias. E cerca de quinze mil trabalhadores foram aposentados por invalidez permanente.
 
No Paraná, um acidente de trabalho quase foi fatal para um soldador. Dois trabalhadores soldavam as estruturas de um silo quando a corda do balancim se rompeu. Eles, caíram de uma altura equivalente a um prédio de quatro andares. Quem vê o operário Anderson Aparecido da Silva não acredita nas sequelas que ele carrega.  A perna esquerda e a bacia tiveram de ser reconstruídas com placas e parafusos.  "Lá onde a gente sofreu o acidente, tinha uma corda amarrada do balancim. Se fosse, assim... um cabo de aço, a gente não tinha sofrido o acidente", diz Anderson Aparecido da Silva, operário.
 
Para quem trabalha em altura, é fundamental conhecer e aplicar o conceito de linha de vida. No caso de Anderson e do colega dele, a linha não existia e foi um milagre eles terem escapado com vida."A linha de vida é o sistema que nós passamos com a corda onde o funcionário faz a sua ancoragem, a sua amarração. Imaginando que ele pudesse ter um mal súbito ou uma rajada de vento, ou escorregar, ou cair do bandeijão, ele ficaria preso pela linha de vida", diz Fernando Frata, engenheiro de segurança do trabalho."Eu acho que tem que seguir a norma certa de segurança. Colocar cinto, fazer tudo certinho para não acontecer o que aconteceu comigo", alerta o operário Anderson. 
 
O improviso e a falta de treinamento que colocam em risco os trabalhadores da construção civil também foram as principais causas do acidente com o pintor Joel da Silva, morador de Gravataí, no Rio Grande do Sul. O acidente que ocorreu quando ele pintava o telhado de uma concessionária foi tão grave que ele passou por uma cirurgia para colocar uma prótese de aproximadamente cinco centímetros na coluna. Ele levou mais de 36 pontos.
 
"Abriu a minha cabeça aqui, eu bati a cabeça em uma janelinha basculante ali, e daí caí sentado e quebrei a espinha. E hoje a gente está com vários problemas, tenho problema na bexiga. Fiquei com uma perna mais curta que a outra. Se eu caminhar umas duas quadras daqui, me cansa. Eu tenho que parar porque senão eu caio, então às vezes a minha esposa tem que estar comigo. Se eu caminho umas duas quadras, começa a vir umas ferroadas no pé e eu tenho que parar. Então ficou bem complicado pra mim assim", diz o pintor.
 
Ao ser perguntado se ele tira alguma lição de tudo isso que aconteceu, Joel diz: "Eu me arrependo porque que eu fui voltar a subir lá, né. Eu fui atrás deles porque eles queriam pressa do telhado que estava muito enferrujado, estava feio. Naquela época eles tinham um feirão lá e eles queriam que tirasse aquelas ferrugens. E a gente se arrepende porque eu não tenho aquela saúde que eu tinha antes. A gente olha vê as pessoas fazendo o serviço que eu gostava e hoje não posso fazer mais, né. A gente vê um cara pintando uma casa, a gente gosta e não pode fazer. É complicado... a gente não pode ficar parado", lamenta o pintor.
 
 
Em todos os casos, os acidentes não causaram apenas lesões e limitações físicas. Houve também o abalo emocional – o trauma de ver a vida mudar de uma hora para a outra. "Aqui é que se situam os riscos reais para a saúde mental, ou seja, é aqui que ele pode ficar vulnerável para a depressão, para a ansiedade, para a síndrome do pânico e, no limite, em sua face mais trágica, o risco de suicídio", avalia o professor do Instituto de Psicologia da UnB, Mário César Ferreira.
 
Ações de conscientização desenvolvidas pelo Programa Trabalho Seguro visam justamente à redução de casos de doenças e de novos acidentes de trabalho, por meio da prevenção. "Se as pessoas adotassem condutas seguras, procedimentos seguros, tanto as empresas quanto os empregados, os acidentes não ocorreriam. Mas isso não envolve só conhecimentos técnicos, não só os aspectos de o trabalhador saber o serviço que ele tem que fazer, da empresa conhecer ou qualificar os seus empregados, mas depende também de uma cultura das pessoas, cultura que transcende o ambiente de trabalho, de ser mais seguro, de ter mais cautela na vida, de ter uma vida de prevenção, de considerar que os riscos eles podem se transformar em danos", diz Marcus Aurélio Lopes, juiz coordenador do Programa Trabalho Seguro no Paraná.
 
"Se evitando essas situações, não apenas se evitam processos, se evitam que vidas sejam desperdiçadas, que situações inúmeras aconteçam e que venham a desaguar os processos dentro do Judiciário", destaca a juíza Morgana Richa, coordenadora do Comitê Gestor Nacional do Programa Trabalho Seguro.
 
"A saúde da gente mudar aqui, só com um milagre profundo da parte de Deus. E é complicado para Deus mesmo fazer, é só ele. Nós mesmos não temos condição de fazer nada, assim, fisicamente, não temos condições. Eu digo para essas pessoas que trabalham assim, o primeiro passo é ver se tem o equipamento, porque depois a vida não tem volta né", diz o pintor Joel da Silva.
 
"Um sonho de menino que era um castelo e que foi desfeito. Que... sei lá... parece que o mundo caiu", lamenta o bombeiro, que não quis de identificar.
 
"Se você pegar meu uniforme, você vê que eu era mais fortinha. Eu estou bem mais magra. Tudo isso porque você entra num quadro de depressão, que você fala: uai, eu não sirvo pra nada", lamenta a vigilante Sandra dos Santos.
 



Conteúdo de Responsabilidade da SECOM  Secretaria de Comunicação Social

Email: secom@tst.jus.br

Telefone: (61) 3043-4907