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A reabilitação de pessoas que deram a volta por cima depois de um acidente de trabalho

 
 
Na última reportagem da série sobre acidentes de trabalho, o Jornada mostra a história de pessoas que conseguiram superar os traumas físicos e psicológicos e voltaram ao mercado de trabalho.
 
Superar os traumas físicos e psicológicos depois de sofrer um acidente de trabalho não é nada fácil. Quem consegue voltar ao mercado, pode se considerar um vencedor, afinal para essas pessoas a reintegração significa deixar para trás o medo de nunca mais voltar a ter uma vida normal.
 
O vigilante Adriano Dias Araújo não precisa escrever frases longas para explicar o que aconteceu com ele depois do acidente de trabalho que decepou a ponta de dois dedos da mão esquerda.  Ele conta qual é o sentimento de poder escrever a palavra "reabilitação" sete meses depois do acidente: "A sensação é de alívio, de retornar ao trabalho e conseguir o sustento da minha família. Desse trabalho eu tiro o sustento da minha família, da minha casa. Só que eu ainda não me sinto cem por cento recuperado. Ainda tenho algumas sequelas do acidente. Mas é uma sensação... um sentimento de alívio", conta Adriano.
 
 
O sentimento é bem diferente da dor sofrida pelo vigilante na guarita de estacionamento de um órgão público, em Brasília. Na época, não existia cancela automática. O controle de entrada e saída da portaria era manual. Adriano conta como ocorreu o acidente: "Eu abaixei a corrente e o carro entrou. No que ele entrou, a corrente prendeu entre o pneu e o para-choque traseiro levando a corrente até o meio do estacionamento. Eu achei que eu só tinha me machucado, quando observei, eu já tinha perdido as pontas dos dedos", relata.
 
Adriano ficou afastado do cargo pelo INSS para se recuperar. Sete meses depois, viu que podia continuar exercendo a função, no mesmo local onde aconteceu o acidente. Por causa da falta de apoio da empresa, que na época era terceirizada, Adriano busca, agora, um apoio da Justiça do Trabalho: "De maneira nenhuma eu quero me aposentar. Eu quero continuar trabalhando. Só que é um direito que eu tenho e que eu descobri esse direito e estou correndo atrás. Como cidadão brasileiro eu pago os meus impostos, então eu quero que seja exercido o meu direito, que é o auxílio acidentário. Uma porcentagem acima do salário até aposentar, sobre a sequela que eu fiquei, porque eu não sou mais normal. Queira ou não queira, eu não sou mais", diz Adriano. 
 
A falta de luvas de proteção durante a construção de uma casa, em São Paulo, contribuiu para Severino Omena perder os dois braços e as duas pernas. Os novos passos na vida de Severino, com a ajuda de quatro próteses, representam uma vontade dele de ter uma rotina de vida, de trabalho: "É muito importante a prótese. No começo, eu ficava largado, mas no meu primeiro passo, que eu andei um metro e oitenta, eu chorei demais... de alegria, de emoção. Trabalhe com segurança, porque não é fácil perder uma perna ou um braço, ou até mesmo os quatro membros", alerta Severino.
 
 
Já no Mato Grosso, o pedreiro Mauro Bispo exibe no corpo as marcas deixadas pela massa de cimento com a qual ele trabalhou durante anos. "A massa fica três dias sem endurecer e você vai usando ela. A cada vez que você vai usando, mais forte fica a química do produto. Se ela cair em um machucado seu, ela queima e você tem que correr pra lavar porque ela corrói a mão da gente de tão forte que ela é", explica Mauro.
 
O descaso inicial do empregador fez o problema se agravar, mas no ano passado, ele conseguiu uma licença médica e iniciou o tratamento. "A médica me deu seis meses. Na primeira vez ela me deu dois meses, mas dessa vez foram seis meses. O INSS disse que eu não tenho mais perícia. Agora é resolver lá em Cuiabá, com a reabilitação", conta.
 
A reabilitação a que Mauro se refere é um serviço previdenciário prestado pelo INSS. A responsável pelo setor de reabilitação profissional do INSS, Fátima Nascimento, esclarece que o serviço é destinado aos segurados da Previdência Social, aos seus dependentes, aos aposentados e às pessoas com deficiência.
 
As pessoas com deficiência e o trabalhador reabilitado contam com o respaldo da Lei dos Benefícios Previdenciários (Lei 8.213 de 24 de julho de 1991). No Artigo 93, ela estabelece proporções a serem cumpridas por pequenas, médias e grandes empresas. Mas, muitas vezes, os órgãos de fiscalização, e até mesmo os trabalhadores, encontram dificuldades nesse processo. A reabilitação profissional é oferecida por 620 agências do INSS, em todo o país. Dados do instituto mostram que, em 2012, mais de dezessete mil trabalhadores contaram com o benefício. "São muitos casos com êxito, onde os segurados têm, por exemplo, cursos técnicos de longa duração e retornam ao mercado de trabalho numa outra função e com salários melhores", afirma a responsável pelo setor de reabilitação profissional do INSS em Mato Grosso, Fátima Nascimento.
 
 
De Londrina, no norte do Paraná, vêm histórias de pessoas que ficaram com sérias limitações após acidentes. Elas, no entanto, aprenderam a viver com as deficiências e hoje se dedicam a conscientizar os outros a não cometerem os mesmos erros.
 
Claudines Bartolomeu é atleta paraolímpico e chega em casa dirigindo o próprio carro.  Outra conquista é conduzir a cadeira de rodas. Sim, uma conquista, diante do diagnóstico que ele recebeu após um acidente de moto. "Na época o médico falou pra mim que eu tinha sofrido uma lesão grave e que eu iria ficar numa cama, praticamente para o resto da vida, vegetando", declara Claudines. Poucos anos antes, o pai de Claudines, Domingos, havia perdido um braço, também em acidente de trabalho.
 
Contrariando as previsões iniciais, além de recuperar parte dos movimentos, Claudines se transformou em um atleta paraolímpico, colecionador de medalhas em competições nacionais. O pai, que não sabia nadar, caiu na piscina para acompanhar o filho. Hoje, eles treinam juntos.
 
No mesmo bairro da cidade de Londrina, mora um casal que virou referência no enfrentamento dos acidentes de trabalho. Eles mantêm um site para apoiar pessoas que sofreram mutilações.  O consultor em segurança Flávio Peralta perdeu os braços ao tocar nos fios de alta tensão. Ele não usava equipamento de proteção nem se certificou de que a rede estava mesmo desligada, antes de executar o serviço. A mulher dele, a professora Jane Peralta, quase perdeu a perna em um acidente de moto em que avançou a preferencial, sem olhar se vinha algum carro. Hoje, ela anda com a ajuda de uma órtese. 
 
Flávio e Jane trabalham, hoje, no apoio às pessoas que sofreram mutilação e também fazendo palestras sobre prevenção de acidentes. "Não dá pra usar meias palavras. Você tem que ser direto e objetivo. Eu conto o que foi que aconteceu comigo no meu acidente. Eu não morri por dez segundos", conta Jane.
 
"A gente quer mostrar para as pessoas que um acidente de trabalho pode mudar a sua vida completamente. Eu conto a minha história, conto que eu levei um choque de 3.000 watts. A gente tenta deixar a pessoa consciente para que ela vá trabalhar e não fazer a mesma besteira que a gente fez. Nós vamos carregar isso para o resto das nossas vidas. Eu quero que as pessoas escutem a nossa palestra e não façam a mesma besteira", finaliza Flávio.




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